domingo, 18 de fevereiro de 2018

"Os materialistas sempre foram ignorantes nas matérias do espírito " / João Pereira Coutinho



Os materialistas sempre foram ignorantes nas matérias do espírito







O corpo dói, a cabeça idem, o termômetro não mente: bom dia, gripe! Desisto dos meus compromissos e viajo para os lençóis, gemendo como um condenado.
Depois, com verdadeiro esforço homérico, cancelo um almoço, uma reunião de trabalho e negocio um novo prazo para entregar um texto. Oficialmente, estou fora do circuito. Estarei nos três próximos dias.
É então que o milagre acontece: pela primeira vez em muitos anos, o celular não toca mais. Os dias voltam a ter 24 horas. Há silêncio ao redor.


O medicamento Tamiflu - Reuters
E, com o silêncio, vem o pensamento: ali deitado, sou capaz de pensar em cinco ou seis artigos e numa boa ideia para um ensaio. Sem falar da leitura: com o coquetel farmacológico perfeito, é possível virar as páginas de um livro como elas merecem ser viradas. Devagar. Quem diria que uma gripe podia ser uma ilha de sanidade?
Por pouco tempo, informa o "The Wall Street Journal" em artigo sobre os últimos avanços contra a doença. Hoje, quem sucumbe ao vírus toma Tamiflu: duas vezes por dia, durante cinco dias. Mas, a curto prazo, será possível despachar o assunto em um único dia. A droga, inventada no Japão, dá pelo nome de Shionogi.
Longe de mim condenar os progressos da humanidade: tratamento dentário sem anestesia é um sonho que eu não tenho. (Para os nostálgicos, sugiro o filme "Maratona da Morte", de John Schlesinger.)
Além disso, é preciso lembrar que a gripe continua a matar em abundância ---só nos Estados Unidos, e desde meados de dezembro, são mais de cem mortes por semana.
Mas também é preciso lembrar que, nos casos benignos (a esmagadora maioria), a droga japonesa promete roubar três dias de pura ociosidade. De que vale ter uma gripe quando a curamos em 24 horas?
Eu sei, eu sei: há sempre a possibilidade de não tomar a droga, mantendo a integridade da experiência horizontal. Mas, no processo, perde-se o mais importante: a desculpa. Como justificar lá no trabalho que estaremos ausentes por gripe durante três dias, ou quatro, ou até cinco (o meu objetivo)?
Aliás, a gripe não é a única espécie em vias de extinção. O próprio sono pode ser o próximo alvo. No fabuloso site "Aeon", a escritora Jessa  Gamble escreve um dos textos mais arrepiantes da minha enfermidade. Pergunta: se a pílula feminina separou o sexo da reprodução, por que não abraçar um tratamento médico que diminui ou até suprime a necessidade de dormir, separando os seres humanos do reino animal?
Ou, por outras palavras, não será um lamentável desperdício de tempo ter 1/3 das nossas vidas em modo inconsciente? Quem, em juízo perfeito, não trocaria esse período perdido por mais 50 anos de "vida útil"?
Houve experiências: estimulantes vários usados em contexto militar. Mas são expedientes limitados, que podem substituir a sonolência pela psicose. Nos Estados Unidos, o Exército procura um meio-termo entre nenhum sono e o sono normal: por exemplo, uma máscara que substitui as oito horas clássicas por metade disso, ou menos de metade. Duas horas de sono absolutamente reparador, eis o Santo Graal.
Ou o Santo Mal. Leio o artigo e pergunto: como é possível reduzir o ato de dormir a uma mera necessidade biológica? Onde está o prazer do abandono e do esquecimento? "A alma é um vício", dizia a grande escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís. Mas os materialistas sempre foram ignorantes nas matérias do espírito.
E como impedir que uma máscara dessas —lentamente, insidiosamente— não seria imposta sobre uma sociedade de escravos? Escravos produtivos, cada vez mais produtivos, mas escravos na mesma? Imagino a competição: o trabalhador A perdeu o emprego porque o trabalhador B estava disposto a só dormir 2 horas.
Tremendo com a doença —minha e do mundo— apago a luz do quarto e escuto a minha consciência: "Aproveita, rapaz, enquanto podes".
Adormeço com um sorriso de alívio. 
João Pereira Coutinho
Escritor português, é doutor em ciência política. Escreve às terças e às sextas.

A desconfiança aumenta nas repúblicas europeias por causa das imigrações....

Como a Suécia se tornou o centro da extrema-direita e do supremacismo branco na Europa

Manifestação neonazi na SuéciaDireito de imagemAFP
Image captionA Suécia também abriga manifestações de neonazistas e de defensores da supremacia branca
Quando no ano passado Donald Trump alertou sobre o que estava se passando na Suécia, muitos se perguntaram sobre o quê o presidente dos Estados Unidos estava falando.
"Vejam o que aconteceu à noite na Suécia... É inacreditável... [Eles] têm problemas como nunca pensaram que fosse possível", disse Trump em um ato na Flórida no qual defendia suas políticas migratórias.
Mas na Suécia não havia ocorrido nenhum atentado nem algo em particular na noite anterior ao discurso de Trump.
Trump esclareceu que estava se referindo a uma reportagem do canal Fox News sobre a situação dos refugiados na Suécia e o aumento da violência supostamente vinculada ao maior número de imigrantes.
"Minha declaração sobre o que está acontecendo na Suécia foi em referência a uma reportagem que foi transmitida na @FoxNews sobre imigrantes e Suécia", escreveu Trump no Twitter.Direito de imagemTWITTER
Image caption"Minha declaração sobre o que está acontecendo na Suécia foi em referência a uma reportagem que foi transmitida na @FoxNews sobre imigrantes e Suécia", escreveu Trump no Twitter.
Há algum tempo a Suécia se converteu em um assunto recorrente em sites, blogs e programas de rádio e de televisão de movimentos da direita, como os autodenominados "supremacistas brancos" e a chamada "direita alternativa", a "alt-right".
Com mais de 160 mil pessoas chegando à Suécia em 2015 - a maioria proveniente da África -, o país escandinavo foi um dos que mais imigrantes acolheram durante a onda migratória na Europa.
O país de 10 milhões de habitantes, com uma tradição de políticas progressistas, não parecia ser um solo fértil para os movimentos de extrema-direita e de supremacismo branco.
Mas as coisas parecem estar mudando.

Por que a Suécia?

Há dois fatores pelos quais os grupos de extrema-direita estão olhando o que está se passando na Suécia, diz Jonathan Leman, pesquisador da fundação antirracista Expo.
Um é "a fascinação" que há entre nacionalistas brancos e de extrema-direita pela ideia de que os suecos brancos estariam sendo "deslocados" de seu país.
Pedestres em EstocolmoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionA Suécia foi um dos países europeus que mais receberam imigrantes nos últimos anos
"A brancura é um símbolo da preservação" tanto na Suécia como em outros países da região, explica ele à BBC.
Outro é a "imagem negativa" do que está se passando na Suécia e que tem sido exportada pela extrema-direita do país: "Eles estão estimulando essa imagem, em inglês, para o mundo".
A isso se soma o fato de a Suécia ser parecida demograficamente com algumas regiões do leste e do centro dos Estados Unidos onde estão as bases de movimentos supremacistas e de extrema-direita.
Na Suécia, há comunidades com mais de 90% de pessoas brancas; alguns americanos de movimentos "alt-right" usam esses números para efeito de comparação.
Além disso, em abril de 2017 houve um ataque com um caminhão em Estocolmo, que deixou quatro mortos. Um imigrante em processo de deportação foi acusado de ser o autor, aumentando a percepção de que a imigração é um problema.

Violência

A Suécia registrou nos últimos três anos um aumento nos índices de criminalidade, principalmente de ataques com armas em regiões que receberam imigrantes.
A cidade portuária de Malmö foi chamada por figuras políticas de direita, como o britânico Nigel Farage, de "a capital dos estupros da Europa", pelo suposto aumento de ataques sexuais.
A polícia numa cena de crime em MalmoDireito de imagemAFP
Image captionA cidade de Malmö registrou aumento da violência; o fato foi usado por nacionalistas para criticar a política migratória do país
A BBC analisou os dados disponíveis e verificou que cidades como Malmö tiveram uma queda no número de ataques sexuais desde 2010, antes da chegada dos imigrantes. Mas a imagem vendida para fora é diferente.
"Vimos um grande número de pessoas chegando, o que fez um amplo grupo da sociedade sueca pensar que isso era um erro. Ao mesmo tempo, a Suécia teve um aumento do crime", diz Christian Christensen, professor da Universidade de Estocolmo.
"O fato é que o crime disparou em áreas específicas de Malmö e de Estocolmo, mas a imagem é que o país está infestado pelo crime e pela violência."
É por isso que a associação entre o aumento da criminalidade e a chegada de imigrantes começou a alimentar as publicações de muitos grupos de extrema-direita não apenas na Suécia, como no mundo.

Movimento identitário

Hoje se podem identificar vários líderes da extrema-direita, desde o do Democratas Suecos, Jimmi Akesson, a outras figuras surgidas de grupos na internet.
Homepage do portal BreitbartDireito de imagemHOMEPAGE DO PORTAL BREITBART
Image captionSites como o Breitbart, um dos portais identificados como "alt-right", têm falado com frequência da Suécia | Foto: Reprodução
Um deles é Daniel Friberg, um empresário que cuida de vários sites de ultradireita, um defensor do nacionalismo que publicou livros como o "O Regresso da Verdadeira Direita: um Manual para a Verdadeira Oposição".
"Compartilho muitos pontos de vista com Richard Spencer. É uma grande figura, escreve grandes artigos. Acredito que temos as mesmas bases de direita", diz Friberg à BBC.
Spencer é um dos maiores propagadores do movimento "alt-right" dos Estados Unidos. Ele criou o site altright.com, do qual Friberg é editor.
Richard SpencerDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionRichard Spencer é o criador do movimento de extrema-direita dos EUA "alt-right", replicado em outras partes do mundo
"Daniel Friberg tem um grande histórico na extema direita na Suécia. Nos anos 90 ele foi membro ativo de grupos neonazis. Uma década depois, tratou de introduzir o movmento identitário", diz Jonathan Leman.
Friberg disse à BBC que desde os 15 anos participou do movimento direitista Aliança Nacional, mas rechaça que seus objetivos tenham sido neonazistas.

Aliança Mundial

A situação também se viu refletida no terreno político sueco, onde partidos conservadores e de ultradireita foram ganhando terreno nos últimos anos.
Em setembro, o partido anti-imigração Democratas Suecos atingiu quase 20% da preferência do eleitorado nas pesquisas.
Jimmie AkessonDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionJimmie Akesson é o líder do Democratas Suecos, partido que tem ganhado mais terreno político entre os de direita na Suécia
O aumento da popularidade da direita e de sua postura anti-imigração continou, mesmo depois do número de pedidos de asilo de estrangeiros ter caído.
Em 2015 foram mais de 60.000 pedidos registrados, enquanto no ano passado o número caiu para 25.000.
Mesmo assim, o efeito dessa imagem negativa se estendeu dentro e fora da Suécia de diversas maneiras.
Os sites e espaços em redes sociais do movimento "alt-right" começaram a fazer "alianças a nível internacional" para difundir suas mensagens, explica Leman.
Protesto contra a extrema-direita na SuéciaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionAtualmente a Suécia tem um governo socialdemocrata, mas os partidos de direita foram ganhando espaço; em setembro haverá eleições
São grupos que "vão além do conservadorismo tradicional, pois impulsionam causas como o nacionalismo e a supremacia branca", diz o pesquisador.
Com a eleições em setembro na Suécia, a direita vê uma oportunidade para impulsionar o nacionalismo e as políticas contra a imigração.
Será uma espécie de laboratório para os movimentos de extrema-direita de outros países, que têm estado muito atentos ao que ocorre na nação escandinava.

Intervenção do Rio está sob suspeita de ser um fracasso.../ blog do Josias

Cinco razões para descrer da intervenção no Rio

Josias de Souza
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Claro que a ideia de uma intervenção capaz de pacificar o Rio de Janeiro é sedutora. Mas a versão segundo a qual as Forças Armadas travarão contra a bandidagem aquilo que Michel Temer chamou de “batalha em que nosso único caminho só pode ser o sucesso” transforma a iniciativa numa espécie de teatro de bonecos —do tipo em que o boneco é manipulado por pessoas vestidas de preto dos pés à cabeça.
Na coreografia do Rio, os manipuladores de Brasília querem que você acredite que o boneco-interventor (pode me chamar de general Walter Souza Braga Netto), levando a virtude no coldre e distribuindo rajadas de civilização, vai estraçalhar o crime organizado em dez meses. E Temer, em Brasília, vibrando. Reconquistando por procuração, sem sair do Jaburu, o território que separa as praias dos morros cariocas. Vão abaixo cinco razões para você não fazer papel de bobo.
1. Faltou planejamento: Decidida na terça-feira de Carnaval, a intervenção foi sacramentada na madrugada de sexta-feira. O decreto foi redigido a toque de caixa. O interventor Braga Netto, recém-chegado das férias, desconhecia a intervenção até 5 horas antes de sua efetivação. A absoluta ausência de planejamento revela que Michel Temer encontrou na astrologia, na quiromancia ou no tarô o otimismo que o levou a prometer que ''o governo dará respostas duras, firmes e adotará todas as providências necessárias para derrotar o crime organizado e as quadrilhas”, devolvendo a paz ao Rio até 31 de dezembro de 2018.
2. Falta Dinheiro: A União está endividada até a raiz dos seus cabelos, caro contribuinte. E a penúria, ninguém ignora, é o caminho mais longo entre um projejo e sua realização. Pois bem. Até o momento, o governo federal não disse uma mísera palavra sobre o custo financeiro da intervenção no Rio. Ao blog, um integrante do staff do ministro Henrique Meirelles (Fazenda) disse que é impossível estimar quanto será aplicado no Rio. Por quê? Ora, muito simples: não havendo planejamento, não há como fazer as contas. De antemão, o auxiliar de Meirelles reitera o óvio: “O cobertor do Tesouro Nacional é curto.”
3. Falta sintonia: Para Temer, o crime organizado do Rio é “uma metástase que se espalha pelo país”. Perguntou-se ao general-interventor se a coisa é mesmo tão grave. E Braga Netto, fazendo sinal de negativo com o dedo: “Muita mídia.” Quer dizer: como um médico que prefere culpar a radiografia a tratar a doença, o general parece responsabilizar o noticiário pela proliferação do sangue, dos assaltos e da violência. O primeiro passo para resolver um problema é falar a mesma língua. Mas Temer e seu preposto conseguem se desentender falando o mesmo idioma.
4. Sobra desconfiança: Na analogia construída pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a intervenção federal no Rio é comparável a um “salto triplo sem rede”. O deputado acrescentou: “Não dá para errar”. A metáfora circense é muito apropriada, pois os personagens envolvidos no trapézio da intervenção precisariam confiar um no outro de olhos fechados. Contudo, o próprio Maia, em privado, manifesta dúvidas quanto aos objetivos de Temer. E membros do alto comando do Exército suspeitam que a iniciativa tenha propósitos meramente eleitoreiros.
5. Falta nexo: em outubro de 2017, o ministro Torquato Jardim (Justiça) fez um diagnóstico aterrador da segurança pública no Rio. Conforme noticiado aqui, Torquato declarou que o governador Luiz Fernando Pezão e o secretário de Segurança do Estado, Roberto Sá, agora demissionário, não controlam a Polícia Militar. Pior: o comando da PM no Rio decorre de “acerto com deputado estadual e o crime organizado.” Muito pior: “Comandantes de batalhão são sócios do crime organizado no Rio.”
As declarações de Torquato abriram uma crise entre os palácios do Planalto e da Guanabara. Contudo, autoridades de Brasília admitiam longe dos refletores que o quadro era, já naquela época, de intervenção. Alegava-se que faltava a Brasília, além de dinheiro, autoridade moral para combater a corrupção alheia.
Cabe perguntar: com que autoridade o general Braga Netto, sendo um ''boneco'' de Temer, vai expurgar os corruptos da polícia? Ora, o presidente da República, ele próprio um colecionador de denúncias criminais, não demite auxiliares denunciados por ladroagem. Tampouco se importa de conviver com o correligionário Luiz Fernando Pezão, ex-secretário de Obras e ex-vice na gestão cleptocrata do presidiário Sergio Cabral.
É contra esse pano de fundo, tão impregnado de cinismo e hipocrisia, que a intervenção no Rio fica parecida com o teatro de bonecos. A diferença é que, no teatro original, a presença dos manipulares de preto no palco é enfatizada. O fingimento da plateia é parte do espetáculo. No palco organizado por Brasília, os manipuladores pedem que você acredite que eles não estão lá e que o general Braga Netto tem ampla autonomia e meios ilimitados para alcançar seus objetivos. . Ou seja: há mais verdade no teatro de mentirinha do que na pantomima da intervenção..